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12 de novembro de 2015 17:51

Artigo – O Dever Moral e as Crianças

Como educador, ando muito preocupado com os acontecimentos recentes de nosso Brasil, onde vejo a questão moral sendo relegada continuamente a segundo plano. Acordos, conchavos e decisões são tomadas focando-se apenas em objetivos pessoais e, em muitos casos, totalmente espúrios, manchando de vergonha a sofrida sociedade brasileira.

No último final de semana resolvi reler alguns autores clássicos a respeito do tema. Um deles, Jean Piaget, trata boa parte de suas concepções de Moral e Justiça através do conceito de crescimento e desenvolvimento do ser humano. Mais do que debater a teoria piagetiana, prefiro relatar aqui alguns dos resultados de seus estudos que observei em meus dois filhos, os quais, segundo o autor, ainda estariam longe da idade de “autonomia moral” – ou seja, ambos ainda “incompletos” para os julgamentos morais corretos e esperados pela sociedade.

Segundo Piaget, meus garotos deveriam ser dirigidos, em seus julgamentos, por um “realismo moral”, uma fase anterior à “autonomia moral”, em que normas morais ainda não seriam elaboradas pela consciência. Para o autor, meus filhos deveriam, por exemplo, ao julgar moralmente um fato, ater-se mais às consequências desse e não à intencionalidade daqueles que agiram.

Resolvi, então, contar aos dois uma história proposta pelo autor, em que eles deveriam julgar quem seria o mais culpado entre dois meninos. Um, intencionalmente, quebra um copo, enquanto o outro, sem querer, quebra dez copos. Para Piaget, meus filhos deveriam acreditar que o pobre menino que quebrou dez copos era “dez vezes mais culpado” que o menino “malvado”, que havia quebrado apenas um copo.

Para minha grata surpresa, porém, quase ao mesmo tempo, meus dois moleques responderam o contrário. Para eles, a intenção deveria ser o principal item a ser considerado para o castigo, e não as consequências do ato.

Intrigado, resolvi fazer um segundo teste. Em uma outra história proposta, a criança deveria fazer um julgamento de justiça sobre uma situação em que uma mãe manda sistematicamente um dos seus dois filhos comprar pão, porque o outro não quer ir à padaria. Isso é correto?

Segundo Piaget, crianças na fase de “realismo moral” tenderiam a achar correto o fato, pois a ordem provém de um adulto e deve ser obedecida. Mais uma vez meus dois filhos me surpreenderam e falaram não concordar com a decisão da mãe dessa história. Segundo as palavras do meu filho mais velho “ela não está sendo justa e eu falaria isso para ela”. “Bingo!”, pensei.

Esse pequeno texto não deseja discordar das teorias de Piaget. Muito pelo contrário! Porém, é interessante ver como nossas crianças já conseguem começar a desenvolver sua “autonomia moral” cada vez mais precocemente. Sendo assim, por que não devemos exigir o mesmo dos nossos políticos e de cada um de nós também?