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25 de outubro de 2011 17:35

Escritor Nei Leandro de Castro fala sobre sua obra com alunos da UnP

No último dia 17/10 o escritos potiguar Nei Leandro de Castro esteve na Universidade Potiguar, participando da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura, quando conversou com alunos do curso de Letras sobre a sua obra, sobre a literatura e sua produção no estado. No evento também estiveram presentes estudantes do PET (Programa de Educação Tutorial), que desenvolvem atividades acadêmicas extra-curriculares, cursos e pesquisas, com incentivos do Governo Federal. As bolsistas Julianeide Herculano e Fátima Lopes fizeram uma entrevista especial com o escritor para o site da UnP. Confira abaixo:

PET – Como nasceu o escritor? Quais suas influências?
NL – Bom, eu comecei escrevendo poesia. Eu tive uma infância normal de jogo na rua, de mergulho no rio Potengi, mergulho no poço dentão. Aos 16 anos, não sei por que, escrevi um poema e como meu pai gostava de poesia – inclusive foi ele que me deu o primeiro livro para ler, Capitães de Areia, de Jorge Amado – eu mostrei para ele. Eu estava chegando em casa, à tardinha, e meu pai estava lendo o poema para os meus irmãos, que eram uns quatro, cinco. Foi a gozação maior do mundo: “Olha é poeta!”. Parecia que estavam me chamando de “baitola” e liam meus versinhos. Eu fiquei chateadíssimo com meu pai, porque mostrei a ele confidencialmente. Passei muito tempo sem escrever depois disso, profundamente aborrecido com a brincadeira dos meus irmãos. Depois eu fui apresentado a um poeta, que era subtenente da polícia, um tio de Dorian Gray Caldas, o tenente Luis Rabelo. Foi ele que me orientou na poesia e na literatura, me emprestando muitos livros. Outro estágio, também muito importante, foi quando eu escrevi uma redação. Estudava no Atheneu, e o professor Luis Maranhão – em saudosa memória, um grande intelectual, político, foi massacrado por Sergio Fleury a pancadas, porque era do partido comunista, e também era irmão do prefeito Djalma Maranhão – publicou minha redação escolar sem dizer nada, de surpresa. A minha redação foi parar no jornal Tribuna do Norte e Newton Navarro, que era muito conhecido em Natal, publicou na coluna dele: “Nasce um escritor”. Eu quase morro de felicidade! Tinha só 16 anos. A partir daí eu tive contato com Newton, com Zila Mamede, maravilhosa, que me deu muitas indicações de leitura. Adorava essa mulher.

PET – Você escreveu poemas e romances, mas qual o gênero com que você se identifica mais?
NL – Eu escrevo poesia com mais prazer, até mesmo porque o romance é muito mais difícil, e complicado, os personagens são chatos, se metem na vida da gente, não deixam a gente dormir direito. Eu gosto de poesia e gosto mais de escrever poesia. Mas tenho visto que ultimamente as musas têm me abandonado. Não sei o que foi que eu fiz, não tenho escrito. Faz um ano que não escrevo poesia, nem prosa, só escrevo uma coluna às sextas-feiras para a Tribuna do Norte, minha única produção literária atual. Estou chateado com isso. 

PET – Por que saiu de Natal para o Rio?
NL – Eu conheci o Rio em 1969, porque ganhei um prêmio literário nacional que dava direito a uma viagem à Argentina, Buenos Aires, aí eu passei pelo Rio. Me apaixonei de tal maneira pela cidade e me apaixonei por uma menina chamada Maria Alina, 18 anos; eu tinha 19. Foi uma paixão pela cidade, mais pela cidade do que por Maria Alina. Ainda hoje sou apaixonado pelo Rio. Eu gosto muito de Natal, estou sempre aqui, minha família é toda daqui, mas eu gosto muito do Rio, sou casado com uma carioca, tenho uma filha carioca, uma neta carioca, então eu gosto muito dali. Apesar dos bueiros que voam.

PET – Durante algum tempo você adotou o pseudônimo de Neil de Castro, teve algum outro?
NL – Não. Neil surgiu quando eu fui escrever no Pasquim que foi um marco, na época, para o jornalismo. Vocês são muito jovens, não sabem disso, mas marcou época mesmo, porque era um negócio de outro mundo na imprensa, pelo sarcasmo, pela inteligência, pelas pessoas que faziam o Pasquim, como Ziraldo, Millôr Fernandes, Jaguar,Henfil.  Então eu cheguei lá e escrevi um artigo como Nei Leandro de Castro, aí o Ziraldo disse: “Esse nome é muito grande, sabe? Aqui tem Ziraldo, Henfil, Jaguar, e você tem três nomes, muda isso!”; aí eu mudei: “Que tal Neil de Castro?”, “Esse tá bom.”.

PET – E Nathalia de Souza?
NL – Não sei quem é.  Me apresente.

PET – Você é formado em Direito, mas nunca chegou a exercer a profissão. Por quê?
NL – Graças a Deus! Eu acho um absurdo, não suporto a profissão. Me formei em Direito porque era a única faculdade em Natal que tinha como professor Luis da Câmara Cascudo, Américo de Oliveira Costa e Edgar Barbosa que eram a nata da intelectualidade. Eu fui por isso. Mas eu nunca gostei, nunca me interessei, nunca estudei. Tenho horror a Direito, a advogados, todos safados, corruptos, quase todos. Talvez seu pai não seja.

PET – Como a publicidade entrou na sua vida, o que ela significou?
NL – Importantíssima. É um meio de vida que pelo menos no Rio dá dinheiro. Todos os bens materiais que conquistei foram através da propaganda. Além de tudo, eu redigia, criava e isso é bom, ganhar bem escrevendo. Trabalhei quase 30 anos na propaganda, em grandes agências do Rio.

PET – Em 1980 concorreu ao prêmio Casa de las Americas. Conte-nos sobre esse episódio:
NL – Foi algo que me deixou profundamente decepcionado. Uma das maiores decepções da minha vida. Quem me contou foi João Ubaldo, que era do júri do Casa de las Américas. Um prêmio maravilhoso que, além de tudo, tornaria o meu livro conhecido por toda América. Então eu ganhei esse prêmio com um livro chamado As margens do Rio e, quando todo mundo votou, o Antonio Candido, um critico literário que tem uns 80 anos mais ou menos, chegou lá e disse “Olha, deixe eu dizer uma coisa a vocês, a Casa de las Americas está dando pela primeira vez um prêmio em Língua Portuguesa e pensem bem, esse livro é bom, mas é cheio que palavrões, nós vamos ficar mal afamados se esse livro for premiado.” E tiraram meu prêmio. Eu achei um absurdo, uma tremenda sacanagem. Foi a maior decepção da minha vida. Não quero saber desse sujeito, um cretino, moralista.

PET – Conte-nos sobre o prêmio da revista Playboy.
NL – Esse foi ótimo. Ganhei um carro que hoje seria num valor de 45 mil reais. Por um conto. Já pensou? Estava almoçando em minha casa, no Rio, com a minha família, aí eu recebo um telefonema: “Olha, é da Playboy, você acaba de ganhar o prêmio”, então eu disse:  “Deixa de conversa, quem é que está falando?”,“É a revista Playboy,  e você acaba de ganhar o prêmio, nós estamos lhe comunicando.” . Ganhei um carro, um “super estilo”. Peguei a chave do meu carro e disse “Minha filha você acaba de ganhar um carro” e ela: “Por que meu pai?” “Porque eu ganhei um melhor.” 

PET – O erotismo é marca constante em sua obra. Fale um pouco sobre isso.
NL – Eu gosto muito. Minha mãe queria que eu fosse padre. Hoje já pensou Frei Leandro? O poder de sedução das mulheres sobre Frei Leandro? Seria uma loucura. É um tema recorrente em mim e eu gosto muito. Sou apaixonado pelas mulheres, adoro as mulheres, acho a coisa mais linda. Eu não diria como Lula, o presidente intelectual, que disse que “A mulher é a obra mais prima da natureza”. Para mim ela é mais tia ou mais sobrinha.

PET – As pelejas de Ojuara é o seu romance mais conhecido. Como nasceu esse herói?
NL – Curioso. Veja, eu só tinha na minha cabeça uma ideia. Um homem manobrado pela mulher chamado Araújo que depois de uma reviravolta na vida dele, se desdobra e mudava o nome de Araújo para Ojuara. Claro que eu li muita literatura, livretos de cordel. Eu fui para Chicago, me isolei e escrevi o livro.

PET – Quanto à adaptação do livro As pelejas de Ojuara para o cinema, o que achou?
NL – Dá para ver, mas no livro Ojuara além do personagem principal tem histórias paralelas que dão mais humor ao romance e essas histórias sumiram todas, como a do Tião Pé de Santo que tinha o maior chulé do mundo e o Galego Assis, o mentiroso. E eu acho que por isso ficou mais ou menos.

PET – Algumas pessoas criticam o seu “regionalismo excêntrico”. Qual seu objetivo ao optar por uma linguagem menos valorizada na sociedade?
NL – Eu não ligo. Não vou deixar de escrever palavrão porque fere o ouvido de fulano. Eu quero que a sociedade se lasque!  Eles que deixem de ler! Nas Pelejas de Ojuara, costumo dizer que tem “um mata burro” nas primeiras páginas, aquela quadrinha do “barbeiro de buceta.” Porque muita gente, quando chega naquela parte, não lê mais. Eu acho ótimo! (risos).

PET – O espaço geográfico de seus romances passa por diversas cidades do Estado. Você conheceu todas elas ou as pesquisou? Voltaria a morar no RN?
NL – Conheci a maior parte. Gosto de Natal, venho sempre aqui, tenho família aqui, mas não penso em voltar para Natal. Tenho minha família no Rio, estou muito satisfeito no Rio, apesar dos bueiros que voam.

PET – Tem algum inédito na gaveta, está trabalhando em algum projeto?
NL – Só por encomenda. Estou escrevendo uma peça para o teatro, para João Goes, “As aventuras do Galego Assis.”

PET – Dos escritores potiguares, quais você acha que mereciam mais divulgação?
NL – Tem um bom romancista que é pouco conhecido que é François Silvestre. Que trabalhou na Fundação Jose Augusto e tem um livro muito bom. É impressionante como não há romancistas aqui no Rio Grande do Norte. Não há romancistas, mas poeta tem demais.

PET – Qual sua relação com as mídias tecnológicas?
NL – Adoro a internet. Imagina escrever 300 páginas numa máquina de datilografia? Era terrível, uma coisa horrorosa. Gosto da internet, mas não de brincar e sim para fazer pesquisas e para escrever.

PET – Conselhos para os que almejam ser escritores.
NL – Ler, ler, e ler. De vez em quando tentar escrever alguma coisa, mas é complicado. A leitura é importantíssima, hoje em dia com essa internet a juventude lê cada vez menos. É um absurdo.

PET – Quais seus projetos para o futuro?
NL – Eu gostaria de escrever mais romances, mas eu não sei se vêm. Eu gostaria muito de escrever. Escrevi aquele Fortaleza dos vencidos e estou inconformado e preciso ter força para escrever e vontade de seguir adiante para escrever um romance. Já poesia me dá mais prazer, mas não é mais fácil. Mesmo com a facilidade que eu tenho, não estou conseguindo escrever poesia. É muito chato isso.