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10 de outubro de 2017 12:07

Leandro Karnal aborda a ética e novas perspectivas na sociedade brasileira

Historiador realizou Conferência Magna de abertura do XIX Congresso Científico no dia 4 de outubro

Em um país em que as pessoas se mostram cada vez mais intolerantes em relação a opinião do próximo, compreender o significado da ética e como ela evoluiu ao longo da História, sinaliza uma possível renovação na postura dos cidadãos e dos seus representantes. “É a primeira vez na nossa história que os poderosos estão temerosos de ir para a prisão. Isso só é possível porque nós somos um Estado de Direito em aperfeiçoamento com problemas”, afirma o historiador Leandro Karnal responsável pela Conferência Magna do XIX Congresso Científico e Mostra de Extensão da Universidade Potiguar, realizada no dia 4 de outubro.

O evento, que abriu espaço ao debate acerca do tema “Ciência e Saberes para a construção de uma sociedade ética”, aconteceu entre os dias 4 e 6 de outubro e trouxe um dos maiores filósofos brasileiros, o professor Leandro Karnal, que tem se destacado na mídia com suas opiniões. Em entrevista, o palestrante e escritor discorreu sobre suas reflexões diante da crise ética no Brasil, da propagação do ódio por meio da internet, criticou os defensores da ditadura e defendeu porque a democracia, apesar de todos os problemas que traz, ainda é a melhor solução para uma sociedade ética.

Ele explica que a ética discute, dentro da História, o campo dos valores com o uso da razão, as regras que fazem a sociedade se tornar racionalmente viável. Dessa forma, evidencia que os valores são sempre históricos, entretanto isso não significa que determinada atitude é correta ou errada. “Ora já foi cultural no Brasil quebrar as mulheres de pancada, já foi cultural a escravidão, já foi cultural executar animais de forma cruel. A ética ensina que mesmo que todos façam e seja tradicional, o fato de ser um gesto homofóbico, racista ou misógino é sempre errado”, declara o professor.

Para Karnal, pela primeira vez na nossa História, nós temos condições de fazer uma renovação ética. “É a primeira vez na nossa história que nós estamos prendendo pessoas importantes por um desvio ético. É a primeira vez que nós temos um milionário branco preso. As prisões não foram feitas nem para brancos, nem para ricos”, avalia.

Analisando a educação, ele afirma que ela é fundamental para incentivar o cidadão a se manter ético diante de uma sociedade em que ser desonesto é tido como um “jeitinho brasileiro”. Mas acrescenta que há dois caminhos para transformar uma sociedade e mantê-la dentro de um patamar ético. O primeiro é o consenso passado na educação dos pais e na educação escolar, o outro é coerção: regras claras com punições. “Nenhuma sociedade se sustenta apenas pela coerção”, esclarece.

Segundo Karnal, o debate sobre a ética aumentou em decorrência da crise econômica, pois quando existia corrupção e crédito barato no exterior, mercado garantido e havia para todo mundo, não se debatia tanto ética. “Você passa a discutir muito a distribuição de bens e valores a partir do momento em que você, evidentemente, sente que o dinheiro que o governador Cabral roubou, o dinheiro que se transformou em joias para a esposa, o dinheiro desviado do governo, matou gente na fila do atendimento”, aponta o professor, sinalizando essa nova compreensão dos brasileiros.

INTERNET
Além disso, ele aborda que fatores sociais relacionados a internet, como as redes sociais consagram a não comunicação das pessoas, que não se limita somente nas redes. “Hoje o nosso grande medo, o nosso grande desafio é o confronto narcísico: viver uma situação em que de fato você seja confrontado no sentido de tirado do jogo, eliminado. A sociedade atual explora muito os medos. E o ódio é filho direto do medo, tal como o preconceito”. Para ele, todas as democracias do mundo estão sofrendo com essa nova situação.

Os problemas na democracia aparecem, afirma Karnal, mas fazem parte do processo. “As ditaduras são assim: ninguém se pronuncia, não há opiniões. Na democracia, você tem o direito a se pronunciar e parece que ela é mais problemática quando ela põe o bode na sala”. Segundo ele, a democracia trabalha o atrito, a estrutura dentro dos limites da lei, já na ditadura as decisões são impostas como a única e matando as demais. Assim, a ditatura sempre é rápida, silenciosa e eficaz.

“E é por isso que ela causa tantas viúvas. Gente que por falta de caráter e conhecimento acha que esse silêncio é produtivo e bom. É essa saudade, dessa paz de cemitério que alguns tem. Porque de fato a democracia é complicada, eu sei”, ressaltou o professor, “Eu comecei a dar aula durante a ditadura e continuo dando aula em plena democracia. Era mais fácil eu ser professor na ditadura”.

Fotos: Alex Fernandes