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29 de outubro de 2013 10:03

Pesquisadores resgatam memória da Natal da década de 20 através de revista

Como era o cenário social e intelectual da sociedade natalense na década de 20? Essa resposta está sendo revelada através do artigo “Revista Cigarra: Cenário Social de Natal nos anos de 1920” desenvolvido pela professora Isabel Cristine Machado com colaboração do professor Manoel Pereira da Rocha, ambos do Curso de Jornalismo da Universidade Potiguar. Como fonte, os professores utilizaram as cinco edições da revista, que circulou de 1928 a 1929, além de entrevistas com historiadores, jornais de época, livros e fotografias, que revelaram uma revista com conteúdo de vanguarda e uma Natal de aspectos progressistas. Em entrevista, a professora Isabel Cristine explica como se desenvolveu a pesquisa, considerada inédita, e os seus resultados. Confira!  

ENTREVISTA

 

1-Vocês encontraram a revista em 2006, nos arquivos do IHG/RN ou no Centro de Documentação Cultural Solar João Galvão de Medeiros? Já havia registros sobre a mesma em algum documento sobre a história da imprensa do RN?

Tivemos acesso, num primeiro momento, em 2006, a 02 exemplares da revista por meio de uma ex-aluna da Escola Doméstica de Natal, Alice Guerra, na época com 97 anos, que nos cedeu os originais para cópia. Encontramos registros da revista no livro de Manoel Rodrigues de Melo, Dicionário da imprensa no Rio Grande do Norte (1907-1987), publicado em 1987. E em 2012, conseguimos todos os exemplares publicados, 05 no total, todos digitalizados, uma doação do historiador Francisco Anderson Tavares.

2-Quantas pessoas estão envolvidas na pesquisa e quais as etapas? 

Estão envolvidos na pesquisa, eu, como coordenadora do estudo e o prof. Manoel Pereira da Rocha Neto, como colaborador. Atualmente temos 01 aluno voluntário: Rafael de Sousa Araújo. Já contribuíram com a pesquisa as alunas Karina Alves Correa da Costa e Isabela Sabino Beserra de Sousa Morais. Estas últimas, inclusive, estão construindo a monografia sobre a representação da mulher na década de 1920 por meio da revista Cigarra. Hoje, estamos finalizando o trabalho de escansão para, em seguida, identificarmos as categorias históricas presentes.

3-O que levou o grupo a se debruçar sobre a pesquisa da revista Cigarra em 2012, após finalizarem a pesquisa sobre a contribuição de Maria do Céu Pereira no Galvanópolis?

Este projeto nasceu do desdobramento da pesquisa “Uma busca nos arquivos: a história da imprensa norte-rio-grandense (1832-1950)”, finalizado em 2008, apoiado pelo Fundo de Apoio à Pesquisa (FAP) da Universidade Potiguar, instituição na qual leciono, entre outras disciplinas, História e Atualidades do Jornalismo no Curso de Comunicação Social. 

O referido projeto tinha entre seus objetivos traçar perfis de jornais e jornalistas do Rio Grande do Norte, preservar sua memória, construir sua história, disponibilizar material de pesquisa para professores, pesquisadores, historiadores e estudante de Jornalismo, além de fomentar a pesquisa na área da Comunicação Social. 

Em agosto de 2006, durante o percurso das pesquisas, deparamo-nos com a revista Cigarra, dedicada às letras, à sociedade, ao esporte, à economia, à aviação, que circulou em Natal, em 1928 e 1929. De imediato, ficamos seduzidos pelo material jornalístico. No entanto, naquela ocasião, tínhamos como objetivo de pesquisa apenas catalogar os periódicos encontrados (entre eles a revista Cigarra), buscando construir um banco de dados capaz de balizar o trabalho dos historiadores e dos cientistas da comunicação no Rio Grande do Norte, dentro do período das comemorações dos 200 anos de imprensa no Brasil, comemorado em 2008.

A descoberta desses materiais jornalísticos deixou rastro de curiosidade e inquietação. Tínhamos a imensa sensação de que algo no futuro deveria ser realizado com aqueles exemplares. 

E foi assim que, em 2010, demos início a mais uma empreitada: a pesquisa intitulada “A contribuição de Maria do Céu Pereira Fernandes na imprensa norte-rio-grandense (década de 1930)”. O estudo teve como objetivo analisar a produção jornalística de Maria do Céu Pereira Fernandes no jornal O Galvanópolis, que circulou em Currais Novos, nos anos de 1931 e 1932.

Cumprido e finalizado este trabalho de pesquisa, em 2011, a semente do aprendizado plantada durante todo o percurso precisava agora crescer e multiplicar. E é por esse motivo que em 2012, que nos debruçarmos sobre a revista Cigarra.

4-Qual a contribuição da pesquisa para a História da Imprensa do RN e até do Brasil?

Durante as discussões sobre a história da imprensa norte-rio-grandense no curso de Jornalismo, sentimos que ainda há uma lacuna sobre o tema, limitando o conhecimento de estudantes de jornalismo e pesquisadores sobre a trajetória do jornalismo e da história dos impressos no Rio Grande do Norte. Portanto, achamos oportuno a realização deste projeto com o objetivo de ampliar o aprendizado acadêmico por meio do conhecimento dessa revista que marcou o percurso da imprensa local. 

Acreditamos que o material de pesquisa produzido, por meio das representações e práticas de escritas dos jornalistas envolvidos, acaba por preservar sua memória e reconstrói sua história, ao disponibilizarmos material de pesquisa para professores, pesquisadores, historiadores e estudante de Jornalismo, além de fomentar a pesquisa na área da Comunicação Social. 

O desenvolvimento da pesquisa Revista Cigarra: cenário social de Natal nos anos de 1920 reforça, portanto, a afirmação de Capelato (1994) ao assinalar que os jornais oferecem vasto material para o estudo da vida cotidiana. Reconstituir pedaços dessa história foi e ainda é o grande desafio para nós que aceitamos desenvolver este trabalho.

5-Qual o momento histórico e social do Brasil e RN ela retratava? Existia uma linha ideológica da revista?

Na segunda década do século XX, a cidade de Natal, acompanhando as mudanças na configuração brasileira, compunha um cenário moderno. Um número maior de pessoas transitava em bondes elétricos; parte da população vestia-se com o que existia de mais atual na moda francesa ou inglesa e frequentava o teatro e o cinema. 

No ano de 1929 – durante a administração do governo de Juvenal Lamartine e do prefeito Omar O’ Grady – foi elaborado o plano urbanístico do arquiteto italiano Giácomo Palumbo uma proposta inédita no momento, principalmente pela sua concepção e ousadia. A partir desse projeto mudava o traçado das vias públicas, ordenava o trânsito e melhorava as condições de habitação. Numa época em que o automóvel era um veículo raro, traçaram-se largas áreas de rolamento e os bairros do Tirol e Petrópolis tornavam-se endereços nobres. 

É através da imprensa que a população norte-rio-grandense tem acesso às expectativas de transformações que a chegada do novo século vinha provocando. Ela segue os passos da imprensa nacional, veiculando e reproduzindo diariamente o que vinha acontecendo no mundo e nas principais capitais do país, em relação à economia, à conjuntura política e à vida cultural e social, através dos principais jornais locais A República e Diário de Natal. Nesse sentido, a imprensa local também procurava acompanhar os passos da modernidade, disponibilizando de infraestrutura material e intelectual para a divulgação de suas transformações, satisfazendo aos avanços do público, cada vez mais desejosos em estar atualizados com os acontecimentos.

É neste contexto que surge a Cigarra, em novembro de 1928. O historiador Wandyr Villar aponta que a ideia é que ela circulasse mensalmente e nos moldes da revista Cruzeiro, do Rio de Janeiro. A concepção da publicação se deu pelo estreitamento que Edgar Barbosa e o Aderbal França tinham com o Rio de Janeiro. Ambos eram amigos de Assis Chateaubriand. Localmente eram amigos de Juvenal Lamartine que resolveu comprar a ideia da Cigarra. Ele foi, portanto, o grande mecenas da revista. 

Seu nome foi escolhido por meio de um concurso. Recebeu 1.038 votos. A comissão de apuração foi composta por professoras da capital. A publicação tinha como diretor o jornalista Aderbal França, secretário, Edgar Barbosa e gerente, Ademar Medeiros. Sua redação ficava situada na avenida Tavares de Lyra, nº 57, na Ribeira, bairro histórico da cidade de Natal. Em levantamento preliminar, observamos que os assuntos abordados giravam em torno da economia, política, sociedade e literatura. No tocante aos gêneros jornalísticos identificamos notícias, artigos e crônicas. Suas capas foram desenhadas pelo cartunista Erasmo Xavier. A revista teve diversos colaboradores. Entre eles: Edgar Barbosa, Oscar Wanderley, Lauro Pinto, Luís da Câmara Cascudo, Ewerton Cortez, Damasceno Bezerra e Palmyra Wanderley.

6-Quais as principais características/curiosidades técnicas da revista? 

Uma característica interessante é que encontramos uma quantidade expressiva de anunciantes que não eram locais como acontecia em outros periódicos. A revista buscou romper paradigmas, como bem afirma Wandyr Villar. Ela foi completamente diferente. Não era uma revista literata como todas as revistas modernistas eram, não era uma revista de acontecimentos sociais apenas. Trazia variedades, notícia criminal, política. Era ainda seletiva, crítica e poética. 

A diagramação possuía aspectos interessantes como litogravuras que ornamentavam matérias e fotos, desenhos que incrementavam os poemas e poesias. Era uma característica da revista não escrever textos longos sobre fatos históricos, mas fotografá-los, muitas vezes sem conexão com o texto que o acompanhava.

7-Como a senhora avalia o desenvolvimento de pesquisas desse tipo no Brasil e no RN e qual o recado/ alerta deixaria para as novas gerações de jornalistas e historiadores interessados pelo tema? 

Participei este ano, na cidade de Ouro Preto, do 9º Encontro Nacional de História da Mídia, promovido pela Rede Alcar, que reúne pesquisadores brasileiros sobre a temática e pude perceber a motivação desses estudiosos em historicizar o campo e suas práticas.

A profa. Aline Strelow, em sua pesquisa de pós-doutorado realizada na UMESP, sob a orientação do prof. José Marques de Melo, em que levantou dados a respeito de estudos sobre a História do Jornalismo no Brasil, constatou que nos primeiros anos deste século houve um período de renovação com a consolidação da disciplina nos currículos universitários e a ampliação dos espaços de discussão acadêmica (Intercom, SBPJor, Alcar, Compós, entre outras).

No Rio Grande do Norte, infelizmente, temos poucos trabalhos na área. Enquanto professora da disciplina História e Atualidades do Jornalismo, tenho empreendido esforços junto aos alunos no desenvolvimento de produções audiovisuais que buscam registrar a trajetória de veículos, periódicos e perfis de jornalistas que atuaram no Rio Grande do Norte. Algumas dessas produções foram premiadas, a exemplo do vídeo Rogério Cadengue: Sonho, logo existo, das alunas Laís Pedrosa, Danielle Soares, Erika Paiva, Karen Oliveira, Lívia Confessor e Nara Peixoto. Hoje se somam mais de 15 produções audiovisuais que oferecem sua parcela de contribuição à história do jornalismo brasileiro, particularmente o norte-rio-grandense. Estamos viabilizando a veiculação dos materiais produzidos na Televisão Universitária (TVU) que teve acesso aos vídeos e sinalizou positivamente o interesse de exibição.

 OBS: Confira as capas das cinco edições da Revista Cigarra, fotos da Professora Isabel Cristine e exemplar de conteúdo da Revista, abaixo!

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